"Hesíodo e a musa", de Gustave Moreau (1891)

domingo, 20 de setembro de 2009

Eternidade e Tempo (Reflexão 1)



O que é eternidade para você? Muitos (talvez você) diriam que se trata de um período infinito de tempo. Ledo engano. Eternidade é algo muito mais fantástico. Ainda está cético, ó fiel leitor de dicionários?

Longe de mim explicar a eternidade. Vamos à Poesia.



                                               Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

ETERNO


“E como ficou chato ser moderno.


Agora serei eterno.

Eterno! Eterno!

O Padre Eterno,

a vida eterna,

o fogo eterno.

(Le silence éternel de ces espaces infinis m'effraie.)

— O que é eterno, Yayá Lindinha?

— Ingrato! é o amor que te tenho.

Eternalidade eternite eternaltivamente

                     eternuávamos

                                 eternissíssimo

A cada instante se criam novas categorias do eterno.

Eterna é a flor que se fana

se soube florir

é o menino recém-nascido

antes que lhe dêem nome

e lhe comuniquem o sentimento do efêmero

é o gesto de enlaçar e beijar

na visita do amor às almas

eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo

mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma

[força o resgata

é minha mãe em mim que a estou pensando

de tanto que a perdi de não pensá-la

é o que se pensa em nós se estamos loucos

é tudo que passou, porque passou

é tudo que não passa, pois não houve

eternas as palavras, eternos os pensamentos; e

[passageiras as obras.

Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um

[mar profundo.

Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos

[afundamos.

É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.

Eternos! Eternos, miseravelmente.

O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas eu não quero ser senão eterno.

Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma

[essência

ou nem isso.

E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde

[pousou uma sombra

e que não fique o chão nem fique a sombra

mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma

[esponja no caos

e entre oceanos de nada

gere um ritmo.”

Eternidade não é prolongar o tempo. Eternidade é transcender o tempo, é superá-lo. É vencer tempo e espaço. Está em íntima associação com o sentimento de infinito e de divindade. Daí a felicíssima citação de Pascal que Drummond coloca em seu poema. Traduzido: "O silêncio eterno destes espaços infinitos me apavora".

Joseph Campbell, um dos principais popularizadores do valor da mitologia no século XX, já avisava veementemente:

"A eternidade não é um tempo por vir. A eternidade não é um tempo longo. A eternidade nnão tem nada a ver com tempo. Eternidade é aquela dimensão do aqui e do agora que os pensamentos e o tempo dissolvem. E experimentar a eternidade aqui e agora é a função da vida".

O autor da pintura acima, William Blake, é um dos poetas que , ao meu ver, melhor expressou esse sentimento do eterno:

"To see a World in a Grain of Sand
And a Heaven in a Wild Flower,

Hold Infinity in the palm of your hand

And Eternity in an hour."

Tradução:

"Ver um Mundo num Grão de Areia
E um Céu numa Flor Selvagem,
Segurar o Infinito na palma da sua mão
E a Eternidade em uma hora."


A pintura acima representa de modo antropomórfico a Deus, o Ancião de Dias, título da obra e um dos títulos de Deus na Bíblia para se referir a sua eternidade. O compasso nas mãos se refere ao ato criador, que se originou na eternidade e que impõe ordem ao caos. O próprio círculo solar é um símbolo de eternidade, visto que um círculo não tem princípio ou fim. Quando você vir um círculo em obras de arte, principalmente as de fundo simbólico, místico ou religioso, lembre-se da eternidade.

Abraço!
 



sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Davi e Golias (Reflexão 2)



Finalizando nossas reflexões sobre Davi, Golias e Caravaggio, veja esta outra pintura do artista italiano, retratando o mesmo tema.
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Compare com a pintura da postagem anterior. Nela, focamos em Davi. Agora, enfatizaremos Golias. Observe a expressão facial de Golias, os traços.
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Estou convencido de que Caravaggio não pintou Golias deste jeito por acaso. Ele, certamente, se baseou nos próprios gigantes de sua época. Ele se baseou nos que sofriam de gigantismo.
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Golias provavelmente foi um dos portadores dessa doença endócrina (isto é, hormonal) que não é tão rara quanto possa parecer. Nesta mesma semana, no hospital, conversei com um deles.
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O corpo humano é um conjunto fantástico de trilhões e trilhões de células, derivadas todas de uma única célula, formada com o encontro do espermatozóide com o óvulo. Esses trilhões estão presentes sob vários tipos altamente discrepantes de formas. Contudo, para que o corpo humano seja um organismo, esses tecidos de células precisam estar finamente relacionados, harmonizados e concatenados.
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O sistema endócrino, pelos hormônios, é um dos eixos de união do corpo. Um dos chamados sistemas integradores, juntamente com o sistema nervoso e o sistema imunológico.
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Hormônios são moléculas transmissoras de informação, secretadas por tecidos especializados, sendo transportados pelo sangue até receptores específicos nas células-alvo.
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Um dos vários hormônios existentes é o Hormônio do Crescimento (GH). Ele é produzido por células da hipófise, a glândula-mestra do sistema endócrino, localizada no cérebro.
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Como o sistema endócrino é finamente regulado, o GH produzido não pode ser caótico. O hipotálamo, outra região cerebral crucial, exerce uma influência reguladora sobre a hipófise: ele secreta o hormônio GHRH, que estimula a liberação de GH pelas células da hipófise.
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Para aumentar ainda mais a regulação, existe um hormônio cujos efeitos são opostos aos do GH: a Somatostatina (SMS). A secreção de somatostatina mantém o GH a níveis baixos no sangue, até o período do sono, quando, então, a somatostatina cai e o GH aumenta. É por isso que nossas avós, muito sabidamente, já diziam que “menino que não dorme, não cresce”.
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O GH exerce várias funções, descritas de modo geral como crescimento. O GH aumenta o tamanho das células, o número de divisões celulares, a formação específica de alguns tipos celulares, cresce os ossos, e tende a aumentar a glicose no sangue.
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No gigantismo, contudo, algo de errado acontece. Surge, na criança ou no adolescente, um tumor na hipófise, e as células desse tumor são produtoras de GH. Esse GH é excessivo e insensível às regulações hormonais. O resultado é um crescimento exagerado do indivíduo, que pode passar bem além dos dois metros de altura.
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Se o tumor surgir na idade adulta, quando os ossos já maturaram definitivamente, o doente não aumenta em estatura, mas as extremidades e vísceras crescem mesmo assim. É a chamada acromegalia.
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Veja uma foto típica de um portador de gigantismo. Perceba como as extremidades estão aumentadas: nariz, lábios, fronte. Perceba que a mandíbula também cresceu excessivamente: o queixo se encontra projetado pra frente (prognatismo). Olhe para os quadros de Caravaggio e reconheça.
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Como a língua também cresce, a voz costuma ficar alterada. O crescimento dos tecidos moles também pode comprimir o nervo mediano, no antebraço, levando a dormências, sensações de choque e outros inconvenientes. Para piorar, como a hipófise se encontra em íntima proximidade com o nervo óptico, o crescimento do tumor pode comprimir o quiasma óptico e levar a perdas visuais. O tumor pode lesar a própria hipófise, prejudicando a secreção de outros hormônios e levando a um quadro maior de hipopituitarismo.
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As mãos no gigantismo se tornam espantosamente grandes. Há excesso de suor (hiperidrose), pele oleosa, e um quarto deles desenvolve diabetes (como disse acima, o GH tende a aumentar a glicose no sangue). Muitos sofrem de complicações cardiovasculares.
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Hoje essa doença é tratável e curável.
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Por muito tempo, os portadores de gigantismo foram considerados atrações de circo, ou, antes, recursos de guerra. Golias provavelmente foi um deles.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Davi e Golias (Reflexão 1)



Observe este quadro do artista barroco Caravaggio (1571-1610). É apenas uma das obras por ele compostas acerca da história de Davi e Golias.
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Aprecie a obra em seus ínfimos detalhes. O jogo de luz e sombra, a técnica do chiaroscuro... Entretanto, é possível que o mais importante na obra seja o seu enfoque inusitado. Em vez de enfatizar o Golias derrotado, em vez de enfatizar o cadáver decapitado, Caravaggio focaliza o jovem Davi. Em vez de enfatizar a vitória e a conquista, Caravaggio realça a serena impassividade por meio da qual Davi administra seu agir.
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Serena impassividade. Sem apoteoses espalhafatosas.
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Tendo apreciado a obra, é importante recorrer às fontes de onde ela veio. Tais fontes borbulham no livro de 1Samuel, na Bíblia Sagrada. O contexto da narrativa de Davi e Golias é importante de se ter em mente. Davi era um jovenzinho ruivo, pastor de ovelhas, o caçula de oito filhos de Jessé, um hebreu da cidade de Belém mil anos antes de essa cidade receber a Maria parturiente com seu noivo José.
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Nessa época longínqua e remota, a civilização hebraica havia instituído a sua monarquia, inaugurada pelo alto e belo rei Saul, da tribo de Benjamim. Muito embora a aparência, Saul manifestou uma deficiência moral que foi acompanhada por uma queda em sua popularidade também. Desobediência, derrotas militares, baderna. Recebe Saul do profeta Samuel o vaticínio de que haveria de perder o reino para "o seu próximo". E sua paz, desde então, desaparece.
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Saul, em tormentos dignos de um Édipo sofocleano, ou melhor, de um Macbeth shakespeareano, pede aos servos que lhe tragam um homem que saiba tocar harpa e, assim, acalmá-lo de seus maus pensamentos. Eis que trazem o jovem Davi; Saul, sem o saber, convida o seu próprio substituto para a corte.
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Não contarei o restante da história, que se desenrola ao longo do belíssimo livro de Samuel. Fica para o leitor. A única coisa que contarei será o princípio da queda de Saul, coincidente com o princípio da ascensão do jovem Davi ao trono: o episódio do gigante Golias.
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Golias era da Filístia, cujo povo era um dos maiores inimigos da nação hebraica pré-exílio babilônico. Interessante é a descrição dele no livro:
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"Então, saiu do arraial dos filisteus um homem guerreiro, cujo nome era Golias, de Gate, da altura de seis côvados e um palmo. Trazia na cabeça um capacete de bronze e vestia uma couraça de escamas cujo peso era de cinco mil siclos de bronze. Trazia caneleiras de bronze nas pernas e um dardo de bronze nos ombros. A haste da sua lança era como o eixo do tecelão, e a ponta da sua lança, de seiscentos siclos de ferro; e diante dele ia o escudeiro" (1Samuel 17.4-7)
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Passando para as medidas do Sistema Internacional, Golias media quase 3 metros de altura. Era um verdadeiro gigante. Toda a sua descrição, e suas palavras posteriores no texto, evocam brutalidade, violência física, tamanho, portentos.
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Davi, contudo, em amplo contraste, desafiando os insultos do irmão, e as incredulidades de Saul e dos homens à volta, que fugiam do gigante, toma uma atitude de real e rara coragem:
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"Davi cingiu a espada sobre a armadura e experimentou andar, pois jamais a havia usado; então, disse Davi a Saul: Não posso andar com isto, pois nunca o usei. E Davi tirou aquilo de sobre si. Tomou o seu cajado na mão, e escolheu para si cinco pedras lisas do ribeiro, e as pôs no alforje de pastor, que trazia, a saber, no surrão; e, lançando mão da sua funda, foi-se chegando ao filisteu" (1Samuel 17.39-40).
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Leiamos o clímax:
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"O filisteu também se vinha chegando a Davi; e o seu escudeiro ia adiante dele. Olhando o filisteu e vendo a Davi, o desprezou, porquanto era moço ruivo e de boa aparência. Disse o filisteu a Davi: Sou eu algum cão, para vires a mim com paus? E, pelos seus deuses, amaldiçoou o filisteu a Davi. Disse mais o filisteu a Davi: Vem a mim, e darei a tua carne às aves do céu e às bestas-feras do campo. Davi, porém, disse ao filisteu: Tu vens contra mim com espada, e com lança, e com escudo; eu, porém, vou contra ti em nome do SENHOR dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado. Hoje mesmo, o SENHOR te entregará nas minhas mãos; ferir-te-ei, tirar-te-ei a cabeça e os cadáveres do arraial dos filisteus darei, hoje mesmo, às aves dos céus e às bestas-feras da terra; e toda a terra saberá que há Deus em Israel. Saberá toda esta multidão que o SENHOR salva, não com espada, nem com lança; porque do SENHOR é a guerra, e ele vos entregará nas nossas mãos. Sucedeu que, dispondo-se o filisteu a encontrar-se com Davi, este se apressou e, deixando as suas fileiras, correu de encontro ao filisteu. Davi meteu a mão no alforje, e tomou dali uma pedra, e com a funda lha atirou, e feriu o filisteu na testa; a pedra encravou-se-lhe na testa, e ele caiu com o rosto em terra. Assim, prevaleceu Davi contra o filisteu, com uma funda e com uma pedra, e o feriu, e o matou; porém não havia espada na mão de Davi. Pelo que correu Davi, e, lançando-se sobre o filisteu, tomou-lhe a espada, e desembainhou-a, e o matou, cortando-lhe com ela a cabeça. Vendo os filisteus que era morto o seu herói, fugiram. Então, os homens de Israel e Judá se levantaram, e jubilaram, e perseguiram os filisteus, até Gate e até às portas de Ecrom. E caíram filisteus feridos pelo caminho, de Saaraim até Gate e até Ecrom. Então, voltaram os filhos de Israel de perseguirem os filisteus e lhes despojaram os acampamentos. Tomou Davi a cabeça do filisteu e a trouxe a Jerusalém; porém as armas dele pô-las Davi na sua tenda. Quando Saul viu sair Davi a encontrar-se com o filisteu, disse a Abner, o comandante do exército: De quem é filho este jovem, Abner? Respondeu Abner: Tão certo como tu vives, ó rei, não o sei. Disse o rei: Pergunta, pois, de quem é filho este jovem. Voltando Davi de haver ferido o filisteu, Abner o tomou e o levou à presença de Saul, trazendo ele na mão a cabeça do filisteu. Então, Saul lhe perguntou: De quem és filho, jovem? Respondeu Davi: Filho de teu servo Jessé, belemita." (1Samuel 17.41-58)
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Uma história bela. Que combina e contrasta a crueza, morte, violência, decapitação e opressão  da realidade externa com os esplendores da coragem, serenidade, fé, superação e honestidade do interior da alma humana.
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Sim, honestidade. Talvez uma das palavras que mais ecoam na minha mente ao ler Davi e Golias seja essa. A ascensão que Davi apresentou a partir deste evento até sua coroação como rei foi marcada por honra e honestidade; a história de Davi, que, repito, deve ser lida por qualquer um que almeje algo de cultura ocidental, é uma história que defende como a ascensão e o triunfo pode vir sem que se recorra à traição, bajulação e hipocrisia.
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Mas, neste episódio com Golias, o que quiçá seja mais importante é a honestidade de Davi para consigo mesmo; ele rejeitou as armaduras, a espada, coisas que, teoricamente, o protegeriam mais do que seus andrajos de pastor. Davi rejeitou não por orgulho pedante, mas porque aquelas coisas lhe eram estranhas; não faziam parte de sua realidade; se Davi as usasse, não seria espontâneo em seu agir, não seria flexível e ágil na sua conduta. Pondo em termos simples: não seria autêntico, e a ruína seria certa. Davi se focou no que ele de fato era, e não no que tinha fisicamente. Saber os próprios limites é inteligência. Não violar os próprios limites é humildade, sabedoria e honestidade.
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Caravaggio, portanto, foi um gênio ao representar Davi do modo como fez nesta sua obra de 1599. Ele conseguiu mostrar a impassibilidade, a serenidade, a desenvoltura. Os joelhos do jovem repousam nos ombros vigorosos de Golias quase como se estivesse sobre uma poltrona. E é isso que a história bíblica propõe: a força espiritual prevalece sobre a brutalidade irracional. Deus vence sem espadas e sem lanças porque seus instrumentos humanos são almas de serena impassibilidade. Essa é a mensagem do texto para mim.
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Mas há mais. A próxima postagem trará novas reflexões sobre o tema.

sábado, 12 de setembro de 2009

Valorizando a Memória (Reflexão 2)



Você já ouviu falar no paciente H. M.?

Esse paciente anônimo simplesmente revolucionou a neurociência. Faleceu dezembro passado, mas foi sua história de vida que mudou profundamente o entendimento da neurobiologia da memória.

H. M. nasceu nos Estados Unidos em 1926, e, aos nove anos de idade, sofreu uma queda de bicicleta. Desde então, passou a sofrer de crises epilépticas. A partir dos 16 anos de idade, passou a sofrer crises mais severas e intratáveis.

Em 1953, ele foi buscar tratamento com um médico chamado Scoville. Ele localizou o foco cerebral das suas epilepsias, o lobo temporal medial. Em seguida, numa cirurgia experimental, H. M. teve parte do seu lobo temporal medial retirado, em ambos os lados do cérebro. Essa ressecção bilateral do lobo temporal medial incluiu o hipocampo e a amígdala, entre várias outras estruturas.
O resultado foi uma profunda amnésia. Mas uma amnésia diferente daquela que comumente conhecemos, na qual se perde a memória de coisas que antes lembrávamos. Essa foi uma amnésia anterógrada. Ou seja, H. M. passou a ser incapaz de formar novas memórias!

A médica dele, Brenda Milner, passou a se encontrar com H. M. periodicamente por quarenta anos, mas, a cada vez que se viam, ela tinha que se apresentar para ele de novo.

H. M. passou o resto de sua vida, até morrer com mais 80 anos de idade, que estava com vinte e poucos anos, a idade de quando sofreu a cirurgia! Se você mostrar a ele fotos de sua juventude e fotos atuais, e perguntar qual delas é a sua foto, ele escolherá as fotos de 1953.

Ele nunca internalizou definitivamente que seus pais morreram. Toda vez que descobria isso, sentia a mesma como se fosse pela primeira vez. Sempre que penso em alguém preso no tempo, eu me lembro de H. M.

O filme "Como se fosse a primeira vez", com Adam Sandler e Drew Barrymore, ilustra de modo humorístico a amnésia anterógrada.




Se você quer saber mais sobre H.M., aqui há uma boa matéria jornalística, inclusive com gravação de um diálogo do paciente: http://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=7584970

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Valorizando a Memória (Reflexão 1)

Na postagem inicial deste blog, tomo a precaução de não ir direto ao pote, de não me atirar precipitadamente ao tema, de não invocar as Musas de modo precipitado, sem antes ter consideração pela mãe que as gerou. Trata-se de um detalhe bonito da mitologia grega, vale a pena falar.
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Aproveito, mais ainda, para tecer uma homenagem às mães em geral; afinal de contas, estou emotivo hoje, e saudoso, porque minha mãe se encontra em outra cidade neste momento.
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A realização e o crescimento do filho substitui o envelhecimento maternal, e anula os sonhos não-cumpridos da mãe. Assim como um rei se alegra por passar a coroa a um sucessor capaz, a relação mãe-filho é um belo exemplo da vida que se realiza por gerar outra vida, o único modo até agora achado de enganar a morte.
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Em contrapartida, os filhos devem se lembrar de suas mães, os profissionais devem se lembrar da faculdade que os formou (o famoso conceito da alma mater), os cidadãos, mesmo sem ser nacionalistas, devem considerar a pátria que os sustentou.
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Assim, há duas verdades na relação mãe-filho. (1) A mãe é o símbolo da manutenção da vida, da alegria schilleriana, em contato mitológico com a própria Terra. A mãe engana a morte. (2) Os filhos devem se lembrar de suas mães apesar de seu crescimento os impelir centrifugamente do lar de nascença. O filho se lembra da mãe após a morte desta. O filho, portanto, se relaciona com a mãe mediante a memória.
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Eu disse tudo isso não só porque estou emotivo, mas porque a mãe das Musas encarna perfeitamente ambos os fatos. Falemos logo quem é a mãe das Musas. Trata-se de Mnemósine, um dos Titãs na mitologia grega.
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Mnemósine, como o próprio nome diz, é a deusa da MEMÓRIA. Afinal de contas, por meio de suas filhas, Mnemósine provê os meios para que a humanidade resista aos efeitos da mortalidade e do tempo. A poesia, a música, o drama, a própria História, as artes, representadas pelas Musas, todas são as mais poderosas ferramentas da humanidade contra o poder da Morte.
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Memória e vida se encontram em Mnemósine. Mnemósine é, portanto, uma mãe arquetípica, um grande exemplo da manutenção da vida que a maternidade provê. E serve para ser uma primeira mostra de que mitologia, longe de ser conto da carochinha, é um modo de expressão humana com profundos correlatos com a psique do homem.
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Acima, você vê uma representação de Mnemósine por Dante Gabriel Rossetti (1828-1882).
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A próxima postagem desenvolverá mais o tema da memória.

Um abraço de boas-vindas.