Observe este quadro do artista barroco Caravaggio (1571-1610). É apenas uma das obras por ele compostas acerca da história de Davi e Golias.
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Aprecie a obra em seus ínfimos detalhes. O jogo de luz e sombra, a técnica do chiaroscuro... Entretanto, é possível que o mais importante na obra seja o seu enfoque inusitado. Em vez de enfatizar o Golias derrotado, em vez de enfatizar o cadáver decapitado, Caravaggio focaliza o jovem Davi. Em vez de enfatizar a vitória e a conquista, Caravaggio realça a serena impassividade por meio da qual Davi administra seu agir.
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Serena impassividade. Sem apoteoses espalhafatosas.
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Tendo apreciado a obra, é importante recorrer às fontes de onde ela veio. Tais fontes borbulham no livro de 1Samuel, na Bíblia Sagrada. O contexto da narrativa de Davi e Golias é importante de se ter em mente. Davi era um jovenzinho ruivo, pastor de ovelhas, o caçula de oito filhos de Jessé, um hebreu da cidade de Belém mil anos antes de essa cidade receber a Maria parturiente com seu noivo José.
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Nessa época longínqua e remota, a civilização hebraica havia instituído a sua monarquia, inaugurada pelo alto e belo rei Saul, da tribo de Benjamim. Muito embora a aparência, Saul manifestou uma deficiência moral que foi acompanhada por uma queda em sua popularidade também. Desobediência, derrotas militares, baderna. Recebe Saul do profeta Samuel o vaticínio de que haveria de perder o reino para "o seu próximo". E sua paz, desde então, desaparece.
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Saul, em tormentos dignos de um Édipo sofocleano, ou melhor, de um Macbeth shakespeareano, pede aos servos que lhe tragam um homem que saiba tocar harpa e, assim, acalmá-lo de seus maus pensamentos. Eis que trazem o jovem Davi; Saul, sem o saber, convida o seu próprio substituto para a corte.
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Não contarei o restante da história, que se desenrola ao longo do belíssimo livro de Samuel. Fica para o leitor. A única coisa que contarei será o princípio da queda de Saul, coincidente com o princípio da ascensão do jovem Davi ao trono: o episódio do gigante Golias.
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Golias era da Filístia, cujo povo era um dos maiores inimigos da nação hebraica pré-exílio babilônico. Interessante é a descrição dele no livro:
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"Então, saiu do arraial dos filisteus um homem guerreiro, cujo nome era Golias, de Gate, da altura de seis côvados e um palmo. Trazia na cabeça um capacete de bronze e vestia uma couraça de escamas cujo peso era de cinco mil siclos de bronze. Trazia caneleiras de bronze nas pernas e um dardo de bronze nos ombros. A haste da sua lança era como o eixo do tecelão, e a ponta da sua lança, de seiscentos siclos de ferro; e diante dele ia o escudeiro" (1Samuel 17.4-7)
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Passando para as medidas do Sistema Internacional, Golias media quase 3 metros de altura. Era um verdadeiro gigante. Toda a sua descrição, e suas palavras posteriores no texto, evocam brutalidade, violência física, tamanho, portentos.
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Davi, contudo, em amplo contraste, desafiando os insultos do irmão, e as incredulidades de Saul e dos homens à volta, que fugiam do gigante, toma uma atitude de real e rara coragem:
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"Davi cingiu a espada sobre a armadura e experimentou andar, pois jamais a havia usado; então, disse Davi a Saul: Não posso andar com isto, pois nunca o usei. E Davi tirou aquilo de sobre si. Tomou o seu cajado na mão, e escolheu para si cinco pedras lisas do ribeiro, e as pôs no alforje de pastor, que trazia, a saber, no surrão; e, lançando mão da sua funda, foi-se chegando ao filisteu" (1Samuel 17.39-40).
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Leiamos o clímax:
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"O filisteu também se vinha chegando a Davi; e o seu escudeiro ia adiante dele. Olhando o filisteu e vendo a Davi, o desprezou, porquanto era moço ruivo e de boa aparência. Disse o filisteu a Davi: Sou eu algum cão, para vires a mim com paus? E, pelos seus deuses, amaldiçoou o filisteu a Davi. Disse mais o filisteu a Davi: Vem a mim, e darei a tua carne às aves do céu e às bestas-feras do campo. Davi, porém, disse ao filisteu: Tu vens contra mim com espada, e com lança, e com escudo; eu, porém, vou contra ti em nome do SENHOR dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado. Hoje mesmo, o SENHOR te entregará nas minhas mãos; ferir-te-ei, tirar-te-ei a cabeça e os cadáveres do arraial dos filisteus darei, hoje mesmo, às aves dos céus e às bestas-feras da terra; e toda a terra saberá que há Deus em Israel. Saberá toda esta multidão que o SENHOR salva, não com espada, nem com lança; porque do SENHOR é a guerra, e ele vos entregará nas nossas mãos. Sucedeu que, dispondo-se o filisteu a encontrar-se com Davi, este se apressou e, deixando as suas fileiras, correu de encontro ao filisteu. Davi meteu a mão no alforje, e tomou dali uma pedra, e com a funda lha atirou, e feriu o filisteu na testa; a pedra encravou-se-lhe na testa, e ele caiu com o rosto em terra. Assim, prevaleceu Davi contra o filisteu, com uma funda e com uma pedra, e o feriu, e o matou; porém não havia espada na mão de Davi. Pelo que correu Davi, e, lançando-se sobre o filisteu, tomou-lhe a espada, e desembainhou-a, e o matou, cortando-lhe com ela a cabeça. Vendo os filisteus que era morto o seu herói, fugiram. Então, os homens de Israel e Judá se levantaram, e jubilaram, e perseguiram os filisteus, até Gate e até às portas de Ecrom. E caíram filisteus feridos pelo caminho, de Saaraim até Gate e até Ecrom. Então, voltaram os filhos de Israel de perseguirem os filisteus e lhes despojaram os acampamentos. Tomou Davi a cabeça do filisteu e a trouxe a Jerusalém; porém as armas dele pô-las Davi na sua tenda. Quando Saul viu sair Davi a encontrar-se com o filisteu, disse a Abner, o comandante do exército: De quem é filho este jovem, Abner? Respondeu Abner: Tão certo como tu vives, ó rei, não o sei. Disse o rei: Pergunta, pois, de quem é filho este jovem. Voltando Davi de haver ferido o filisteu, Abner o tomou e o levou à presença de Saul, trazendo ele na mão a cabeça do filisteu. Então, Saul lhe perguntou: De quem és filho, jovem? Respondeu Davi: Filho de teu servo Jessé, belemita." (1Samuel 17.41-58)
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Uma história bela. Que combina e contrasta a crueza, morte, violência, decapitação e opressão da realidade externa com os esplendores da coragem, serenidade, fé, superação e honestidade do interior da alma humana.
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Sim,
honestidade. Talvez uma das palavras que mais ecoam na minha mente ao ler
Davi e Golias seja essa. A ascensão que Davi apresentou a partir deste evento até sua coroação como rei foi marcada por honra e honestidade; a história de Davi, que, repito, deve ser lida por qualquer um que almeje algo de cultura ocidental, é uma história que defende como a ascensão e o triunfo pode vir sem que se recorra à traição, bajulação e hipocrisia.
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Mas, neste episódio com Golias, o que quiçá seja mais importante é a honestidade de Davi para
consigo mesmo; ele rejeitou as armaduras, a espada, coisas que, teoricamente, o protegeriam mais do que seus andrajos de pastor. Davi rejeitou não por orgulho pedante, mas porque aquelas coisas lhe eram estranhas; não faziam parte de sua realidade; se Davi as usasse, não seria espontâneo em seu agir, não seria flexível e ágil na sua conduta. Pondo em termos simples:
não seria autêntico, e a ruína seria certa. Davi se focou no que ele de fato era, e não no que tinha fisicamente.
Saber os próprios limites é inteligência. Não violar os próprios limites é humildade, sabedoria e honestidade.
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Caravaggio, portanto, foi um gênio ao representar Davi do modo como fez nesta sua obra de 1599. Ele conseguiu mostrar a impassibilidade, a serenidade, a desenvoltura. Os joelhos do jovem repousam nos ombros vigorosos de Golias quase como se estivesse sobre uma poltrona. E é isso que a história bíblica propõe: a força espiritual prevalece sobre a brutalidade irracional. Deus vence sem espadas e sem lanças porque seus instrumentos humanos são almas de serena impassibilidade. Essa é a mensagem do texto para mim.
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Mas há mais. A próxima postagem trará novas reflexões sobre o tema.